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Alguma coisa está fora da ordem

Algo está errado no mundo. Ou, no mínimo, estranho.

Teorias da conspiração à parte - e deixando de lado qualquer espécie de fanatismo ideológico, seja ele religioso ou não -, o certo é que tem alguma coisa esquisita, fora da ordem.

Nunca fomos tão individualistas. Nunca pensamos tanto em nós mesmos. O que interessa é o “meu” emprego, o “meu” salário, a “minha” tal estabilidade, a “minha” família, o “meu” sucesso, o “meu” futuro. Dane-se o resto.

Como consequência, nunca fomos tão sós, apesar de tantas companhias. Nunca tivemos tanto medo do outro. Nunca sofremos tanto com a violência. A desigualdade social assustadora, os abismos, nada disso nos sensibiliza mais.

Nunca fomos tão intolerantes. Em casa, no casamento, no trabalho, no trânsito. Até os mais mansos dos mansos aderiram ao discurso de não levar desaforo pra casa. Nunca fomos tão brigões. Nunca gritamos tanto.

Como consequência, nunca fomos tão chatos. A lamúria virou regra. Reclamamos de tudo e todos. Nada mais nos satisfaz. Conseguimos transformar senso crítico em intolerância.

A guerra de sexos nunca provocou tanto estrago em nós. As mulheres se perderam em um feminismo insano. E nós homens descobrimos nossa fragilidade da forma mais trágica possível.

E o sexo, sexo mesmo, também nunca provocou tanto estrago em nós. Na tv, ouvi esses dias um jovem dizendo que “já fu… com a irmã”. Às gargalhadas, contou que quando o incesto foi consumado, ele estava bêbado. Ela, drogada.

Ainda diante da tv, presenciei recentemente uma “especialista em sexo” decretando que em pouco tempo já não teremos mais a divisão homem/mulher, heterossexual/homossexual/bissexual, monogâmico/poligâmico.

Os pais não podem mais dar palmadas nos filhos, sob o surreal risco de irem parar na cadeia. Virou lei. O presidente sancionou, alegando que é necessário criminalizar os espancamentos. Ora, ora, espancar já é crime. Não era o espancamento que estava em jogo.

Sem palmadas, sem limites, nossas crianças crescem em busca de poder. Nunca fomos – crianças ou não – tão sedentos pelo poder. Não basta mais ser rico, milionário. É preciso ter poder. Muito poder. Assim, nunca fomos tão falsos. Tão infiéis. Tão traíras. Tão lobos vestidos de cordeiro.

Com poder em mãos, ou em busca de, nunca fomos tão sedentos de perfeição. Não aceitamos mais defeitos, limitações, frustrações. Não engolimos mais derrotas, inevitáveis. Queremos o corpo impecável - para sustentar nosso poder, nossa intolerância, nosso individualismo, nosso sexo.

Como consequência, estamos morrendo. Fisicamente, espiritualmente. E estamos morrendo como somos: imperfeitos.

Algo, definitivamente, está errado.

Um quarto de século

Sempre que chega meu aniversário, escrevo aqui.

Não é pra pedir os parabéns, não. Pelo menos não necessariamente.

Sei lá, acho que fico mais sensível, pensativo.

É bom perceber como a vida da gente muda. A minha tem mudado muito, a cada dia. Tanta coisa… Sinal de que estou vivendo. E lendo a vida.

Ando me surpreendendo com atitudes minhas. Rindo de coisas do passado. Cheio de ânimo em relação ao futuro. E tentando absorver bem o presente.

Tudo passa. E rápido. Quanto mais vivo, mais constato isso. O sofrimento perde força. E a alegria é encarada como deveria: na sua essência, sem euforia.

Tenho me esforçado para amar mais minha família e meus amigos. Para não me estressar tanto no trabalho. Mas para trabalhar melhor, sempre.

A cada ano que passa, quero me entender mais, me aceitar mais.

Quero criar menos problemas. E enfrentar com mais serenidade os que surgirem sem que eu os crie.

Quero viajar. Ir mais a São Paulo. Voltar a Nova Iorque, a Buenos Aires, à Europa. Ao Piauí e às minhas origens.

Quero comer melhor. Quem sabe de três em três horas, como prega a cartilha da boa alimentação. Quero ir mais vezes a natação onde estou matriculado.

Quero cantar mais, desafinar menos. Tocar mais o piano da sala.

Vou continuar perseguindo tudo aquilo que Deus já escolheu pra mim. Sem a fantasia de destino. Mas com a certeza de que Ele cuida dos passos que dou.

Leiamos a vida. Juntos. A cada ano, a cada dia.

Vou ali e volto já

Maldita inveja

Como é difícil o ser humano se alegrar com a alegria alheia.

Fico angustiado quando me deparo com episódios de inveja, daquelas perversas, sabe? Episódios protagonizados por gente que não aceita a felicidade do outro se não estiver participando dela.

A inveja é um comportamento típico de gente insegura, que não confia no próprio taco. De gente carente de reconhecimento intenso e a todo instante. Que não aceita ter a atenção dividida.

O invejoso é mimado. Ao extremo. Precisará levar muita rasteira da vida. E certamente levará, mais cedo ou mais tarde.

Bem-aventurados os que não apenas aceitam ver o sorriso no rosto do outro, como torcem por isso. A vida fica mais leve. E os recompensa com alegria dobrada – a dele e a do outro.

Fumar dá nisso

Não é piada, juro.

Um cara chegou à padaria e pediu cigarro.

Quando recebeu o maço, olhou na parte de trás e se deparou com aquela imagem avisando que “fumar causa impotência sexual”.

Eis que o camarada fez um novo pedido:

- Não tem aquele do câncer aí, não?

Rebolation-tion-tion

Que um casamento com a família inteira reunida renderia boas cenas e histórias pra contar, eu não tinha dúvidas.

Mas ver meus pais e até minha avó na roda do rebolation foi demais.

Não, infelizmente não tenho registro visual disso.

Madames, reclamações e visto aprovado

O pior de tirar o visto americano não é ter de pegar nove filas e esperar quatro horas para responder a duas perguntas e ir embora cansado e com fome.

O mais chato é ser praticamente obrigado a ficar ouvindo, de todos os lados, madames falando de suas viagens ao exterior, das compras de bolsas e sapatos e dos hoteis luxuosos onde se hospedam. Nojo.

Engraçado que também cansei de ouvir gente reclamando dos Estados Unidos. Por que mesmo que estão indo pra lá, então?

“É preciso saber perder”

Não dá pra gente ganhar sempre. Ninguém ganha sempre.

Uma das virtudes mais nobres que podemos ter é saber perder. A derrota, por mais estranho que pareça, não é sinônimo de fracasso. Pelo contrário, nos impulsiona a novas vitórias.

É mais feliz, e vive mais leve, quem aprende a levar um toco, por exemplo. Quem aceita um não, explícito ou implícito. É preciso saber perder, levantar a cabeça e esperar as próximas oportunidades.

Quando o juiz apita e o jogo acaba, acabou. Não dá pra reiniciar a partida. Quando as luzes do placar se apagam e a torcida vai embora, acabou. É preciso saber perder, voltar a treinar e esperar o próximo jogo.

Quando a lista de aprovados é divulgada e o nome que a gente quer que esteja lá não está, acabou. Não dá pra refazer a prova. É preciso saber perder, voltar a estudar e esperar pela próxima.

Quando surgem casos concretos de pedofilia dentro da Igreja, ela precisa saber perder. Reconhecer o problema, e não classificar notícias verídicas como fofocas, como chegou a fazer. Pedofilia é crime. Dos graves. Quem o pratica, quem quer que seja, merece cadeia. Graças a Deus, os discursos estão mudando de tom.

Em tempo: sou católico, dos praticantes. Encaro tudo o que tem acontecido como momento propício para mudança, não como perseguição – tese típica de gente alienada e que não sabe perder.

De fato, perder não é fácil, em todos os casos. Somos apegados à nossa imagem, ao que os outros pensam de nós. Queremos ganhar sempre. A derrota machuca, incomoda. Mas vale, sim, a pena se esforçar para aceitá-la. Aliás, quando ela existe, não adianta fugir dela.

Desejo, de verdade, que eu e você aprendamos a perder. Só assim saberemos ganhar. E leremos a vida como ela é: com vitórias e derrotas.

Os sem paciência e sem noção

Não estou etendendo. Juro que não.

Algumas reportagens mostram passageiros europeus reclamando da proibição dos voos na Europa por conta das cinzas do vulcão de nome esquisito.

Uma coisa é achar ruim perder compromissos, ficar horas e horas no aeroporto, essas coisas. Mas reclamar da proibição é insanidade.

Aliás, quem continuar reclamando podia ser colocado dentro de um avião e servir de cobaia, pra gente saber se as turbinas param ou não com as cinzas.

Na terra de Negão, o maníaco de Luziânia

A equipe do Correio Braziliense foi enviada ao interior da Bahia, a uma região a cerca de 700km de Brasília, com a missão de conhecer o passado de Ademar Jesus da Silva, o homem que confessou ter matado seis adolescentes em Luziânia (GO). O mistério foi desvendado no fim de semana passado.

Na última terça-feira, por volta das 8h, eu, a repórter fotográfica Monique Renne e o motorista Everaldo Brasil chegamos ao município de Serra Dourada, onde Ademar nasceu e viveu até os 24 anos, segundo familiares.

Logo na entrada, nosso carro adesivado com o nome do jornal chamou a atenção dos moradores. Todo mundo já sabia do que se tratava. Nas ruas, não se comentava outra coisa.

Nosso primeiro destino foi a delegacia da cidade, bem pequena, com apenas dois funcionários. Antônio, o carcerário, nos contou que o delegado só chegava após as 12h. Vinha de Santa Maria da Vitória (BA), a quase 70km dali, onde também nós estávamos hospedados e montamos nossa base. Em Serra Dourada, o sinal dos celulares e a internet não funcionavam bem.

Antônio nos adiantou o que sabia e o que ouvia falar na cidade. Disse também que já havia começado a vasculhar os papeis para ver se encontrava alguma coisa sobre o pedreiro assassino. Tudo na delegacia é manual.

Serra Dourada é uma minúscula cidade. Tem pouco mais de 18 mil habitantes e gira em torno da agricultura. O último homicídio, segundo Antônio, ocorreu em dezembro passado, após uma briga de bar. Havia um único preso na delegacia: um homem, por porte ilegal de arma.

Dali, seguimos para o fórum, perto do centro, onde não há promotor nem juiz fixos. Fomos orientados a conversar com Henrique, o oficial de Justiça e faz-tudo do fórum. Encontramos uma fila de pessoas em frente à sala dele. Era gente da cidade que passou em concurso público e, com Henrique, precisava tirar o documento nada consta.

Contamos a Henrique o motivo da nossa presença ali: queríamos checar se havia algum processo no nome do assassino de Luziânia. Henrique ficou de procurar e pediu que retornássemos depois.

Na saída do fórum, conhecemos Terezinha, uma moradora de 47 anos que nos falou da sua tristeza em ver o nome da cidade ganhar uma fama tão ruim nacionalmente. Durante a conversa, ela chamou Suely, que passava pela rua. Suely também nasceu em Serra Dourada. Foi ela quem nos informou da existência da mãe do assassino.

As informações que tínhamos antes de sair de Brasília eram de que o pai do pedreiro vivia na cidade. A mãe provavelmente estaria morta. Mas era justamente o contrário: o pai estava morto e a mãe, viva. “O nome dela é Rosa, mora em Santana”, contou-nos Suely.

Decidimos pegar a estrada com destino a Santana, a 40km de Serra Dourada. Antes, porém, passamos no hospital da cidade à procura de um primo do assassino. Ele não estava de serviço naquele dia.

Em Santana, paramos no primeiro posto de gasolina e perguntamos sobre dona Rosa. Indicaram-nos o alto da serra. Dona Rosa vive praticamente na última casa da cidade, bem escondida, na periferia da periferia.

Na entrada da casa de dona Rosa, encontramos deitado em um banco do lado de fora um dos irmãos de Ademar: Edinelson, que guarda sequelas de uma pancada que, segundo a mãe, levou em um bar, no tempo em que também morou no Distrito Federal, no Guará II.

Pedimos licença a Edinelson e ele nos permitiu que entrasse. Domingos, outro irmão, via tv na sala, deitado no sofá. Levantou-se quando entramos e chamou a mãe, dona Rosa, que estava na cozinha.

Dona Rosa nos acolheu como hóspedes. Sentamos, ali mesmo na sala, nos apresentamos e perguntamos se ela era a mãe de Ademar. Ela confirmou e começou a falar. Rosa e Domingos desabafaram durante mais de duras horas.

Nada, naquele dia, poderia ser mais intenso do que a conversa com a mãe de Ademar. Voltamos para Santa Maria da Vitória, nossa cidade-base, e passamos o resto da tarde enviando à redação as informações conseguidas até então.

Às 8h30 do dia seguinte, quarta-feira, chegávamos a Riachão, povoado pertencente a Serra Dourada, a pouco mais de 20km da entrada do município. Foi ali onde Ademar nasceu. Na primeira casa em que paramos – já tínhamos referência –, encontramos Nequinho, outro irmão de Ademar, que, mesmo desconfiado, aceitou conversar com a reportagem.

Em seguida, no mesmo povoado, sentamos para ouvir os pais da jovem com quem Ademar teve dois filhos: seu Edilson e dona Terezinha. A filha deles morreu aos 25 anos, segundo os próprios pais, vítima de um derrame cerebral. O casal de filhos de Ademar mora com os avós.

Depois seguimos até a escola onde os filhos biológicos de Ademar estudam, em Serra Dourada. Conversamos com a diretora da unidade de ensino, para saber como eles tinham reagido ao episódio. A menina, de 18 anos, não quis falar conosco. Não insistimos. O adolescente de 14 anos, nem tentamos.

Por volta das 11h30, voltamos ao fórum, onde Henrique, o oficial de Justiça, havia separado para nós o processo em que consta o pedido da prisão preventiva de Ademar por tentativa de homicídio. Enquanto líamos o processo, chegou o delegado da cidade, com quem conseguimos ainda mais informações.

A todo instante, pessoas nos abordavam para contar algo que sabiam ou que ouviram dizer. A cidade estava revoltada, abalada. Os familiares demonstravam receio, sofriam pelo ocorrido e repetiam não ter culpa.

Naquela tarde, consolidamos as informações colhidas e, com o aval do jornal, retornamos na manhã do dia seguinte. Voltamos para casa pensativos diante de tudo o que ouvimos. Por mais que se tente, continua muito difícil entender o que levou Ademar a cometer tanta brutalidade.

Leia: Como alguém mata e fica quietinho?

Leia: Ademar estava foragido e com o nome trocado

Leia: Parentes de pedreiro temem represálias

A quem interessar, os áudios e os vídeos das entrevistas estão nas seções “áudios” e “vídeos” do site do Correio.

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