Encontrar a perfeição na imperfeição

Porque achamos que temos de ser perfeitos, cobramos do outro perfeição, numa lógica mais simples do que parece.

E se não a encontramos – ou seja, sempre – nos revoltamos com a imperfeição alheia, nada mais do que reflexo da nossa própria imperfeição.

Num mundo cada vez mais midiático e conectado, as aparências nunca tiveram tanta força, nunca foram tão soberanas.

Vale o que parece ser, não o que de fato é. Vale o que eu escolho mostrar, não o que eu sou. Vale a maquiagem, a máscara, a superfície. Vale a foto do perfil.

Mas a vida nos ensina. Ou ao menos tenta. E, nela, não podemos escapar das nossas falhas, misérias, fragilidades, ou como queira chamar.

Mais cedo ou mais tarde, o outro se depara com elas. E nós também com as dele. E segue a vida, nessa troca certa.

Quanto mais procuramos romper com essa verdade, mais nos decepcionamos, mais tornamos a vida mais pesada. E mais fantasiosa e ilusória, uma vez que buscar a perfeição – em si e no outro – é tentativa eternamente frustrada.

Parece óbvio demais. E é. Mas não raras vezes entramos no circuito perverso das idealizações e, sem que percebamos, somos hipnotizados em meio a missões impossíveis.

Ajustar o foco é preciso. Aos poucos, que seja.

Encontrar a perfeição na imperfeição é o desafio. Em outras palavras (uma, por sinal): amar. Amar a si mesmo e ao outro, ciente da humanidade da qual ninguém pode fugir.

O “pra sempre” nem sempre acaba

Ah, os relacionamentos…

Podemos galgar e conquistar sucesso profissional, engordar a conta bancária, gozar de saúde física e intelectual, mas eles, os relacionamentos, continuam a ocupar dentro de nós o lugar de honra que lhes é devido.

São os relacionamentos, por vezes, os únicos capazes de nos levarem ao cume da euforia, ao êxtase máximo e soberano do prazer, ao topo daquilo que entendemos por felicidade.

Ao mesmo tempo, são eles que nos adoecem, que nos empurram aos momentos mais dramáticos e dolorosos – em todos os sentidos – de nossa história e da percepção que temos dela.

Ah, os relacionamentos…

Ficamos por aí tentando nos agarrar a modelos, àquilo que um dia nos ensinaram ou aprendemos sem que ninguém nos ensinasse.

Vamos crescendo assim: chorando e sorrindo com os romances do cinema, suspirando com os beijos da tv, tentando entender o amor de nossos pais, invejando e repudiando relacionamentos alheios, enquanto, internamente, lutamos para decifrar sentimentos e acumulamos expectativas reais e irreais.

Desde os primórdios, os humanos se acostumaram a ditar regras sobre o amor, numa ânsia compulsiva de se convencer delas, mesmo que nunca tivessem a eficiência atestada.

Entre encantos e desencantos, frios na barriga e DRs desastrosas, a humanidade segue em busca de uma verdade sobre os relacionamentos.

Queremos ser compreendidos, queremos ser amados, queremos nossos desejos prontamente atendidos, queremos a satisfação pelo outro.

Queremos tanta coisa…

Os que se dizem mais avançados, maduros e experientes na sempre frágil ciência do amor, pregam um equilíbrio jamais encontrado. Doutrinam com base na ordem do “tem de ceder, tem de se adaptar, tem de abrir mão”. E, sabendo o que tem de ser feito, rastejamos atrás da comprovação empírica.

Ah, os relacionamentos…

Insanidade, loucura, invencionice, esbravejam os desiludidos com a pretensão de serem realistas. Como pode duas pessoas distintas aprenderem a ser uma só ou a se transformarem em uma outra pelo outro?

Quanta gente, alicerçada na própria trajetória, empacou, travou, desistiu, cansou, enojou pelo caminho.

Quanta gente complicou o complicado.

Ah, os relacionamentos…

Sem entendê-los, um dia ousaram cantar que “o pra sempre” sempre acaba, como que minando a esperança ou sopros dela.

Quanta gente se convenceu disso.

Na era das redes sociais, o vício pela novidade ganhou poder de destruição e ajudou a sufocar o “pra sempre”.

Pobre, “pra sempre”…

Com lógica semelhante à do universo virtual, a efemeridade contaminou nossos relacionamentos, distorcendo sensações.

Na interminável lista dos nossos quereres, queremos algo novo, a todo instante. Queremos atualizações, queremos retuítes, queremos curtições.

Se a página fica velha, perde valor.

Ah, os relacionamentos…

Ah, o “pra sempre”, ressuscitado somente quando o outro cai na vala da normalidade, da qual nenhum ser vivente pode escapar. Quando o príncipe encantado despenca do cavalo. Quando as rosas revelam espinhos.

Ah, o “pra sempre”, construído na rotina, na mesmice, no cotidiano, no comum, na normalidade, no desencanto e em tantas outras situações sempre apresentadas a nós como “o fim”.

Ah, o “pra sempre”, conquistado por quem compreendeu o amor além da paixão, por quem conseguiu sair de si mesmo, por quem aprendeu a enxergar no outro novidade e estímulos constantes.

O “pra sempre” nem sempre acaba.

Nós é quem escolhemos acabar com ele.

Da aurora ao crepúsculo, a vida segue

Hoje vi o sol chegar e ir embora, como tantas outras coisas na minha vida.

Ele surgiu ali, na dele, por detrás daquelas nuvens doidas ainda escurecidas e das chapadas do cerrado que aprendi a admirar.

Chegou ele, o sol, anunciando um novo dia, me enchendo de esperança.

Era cedo, bem cedo. E eu já estava na estrada.

Um silêncio…

Tentei me silenciar também, para contemplar aqueles primeiros raios amarelados lançados sem rumo. Ou melhor, com rumo muito bem definido para todas as direções.

Perdido e encontrado, ao mesmo tempo.

O olhar vai longe. Tão longe que se perde no horizonte da aurora.

O corpo mole e fraco contrasta com a rigidez daqueles olhos fixos e enrijecidos no nada.

A manhã veio, gelada, apesar dos raios do sol. Com ela, um vento insistente, que atrapalhava minha tentativa de silêncio.

Horas depois, na mesma estrada, estava eu a observar o mesmo sol despedindo-se. Mais firme, é verdade. Mas, aos poucos, sem força, como acontece comigo em muitos fins de tarde.

50 tons de amarelo, de vermelho, de laranja, de azul… Um arco-íris sem extravagância. E, assim, o crepúsculo de hoje distribuiu lições de sobriedade.

A escuridão da noite, enfim, sufocou a luz do sol, que lá se foi refugiar-se para além dos galhos secos de árvores quaisquer fincadas em itálico à beira do caminho.

O silêncio reapareceu. O olhar distante, fixo no nada, também. Assim como o vento, embora menos gelado.

Ficou o vaivém dele, o sol, e seus mistérios e desígnios.

Também restou eu, com mistérios e desígnios semelhantes.

Amanhã, daqui a pouco, ele, o sol, volta. Eu também.

E seguem-se os dias, sempre renovados.

A grandeza da gratidão

O contrário da gratidão não é a ingratidão. É a indiferença.

E ela, a indiferença, tem o poder de ser mais venenosa e provocar danos ainda mais profundos do que os da própria ingratidão.

A gratidão é um dos gestos mais nobres do ser humano. Revela maturidade, humildade, desapego de si mesmo.

Gratidão é mais do que um “muito obrigado”, mais do que um agradecimento por ter uma satisfação pessoal atendida. A gratidão tem como foco o outro: é perceber o outro, reconhecer o esforço do outro.

É por isso que só consegue ter gratidão quem se dá conta de que a vida da gente só faz sentido quando existe um outro a quem possamos ser gratos.

A gratidão é sentimento de gente que se dispõe a sair de si mesmo.

Quem não alimenta a gratidão em seus relacionamentos – de qualquer espécie – já absorveu a esquisita tese de que o outro tem a obrigação de satisfazê-lo, de tratá-lo bem, de atender às suas vontades.

É quando geralmente nasce a indiferença, fruto do comodismo, da rotina mal vivida, da certeza equivocada de que o outro estará sempre à disposição.

Quem não fica atento – e, portanto, trata-se de um exercício – ao que o outro faz de bom muito mais facilmente enxergará o que ele deixa de fazer.

Tenho a certeza de que reconhecer as atitudes em nosso favor, por menores que elas sejam, pode salvar muitos de nossos relacionamentos, fortalecê-los ou simplesmente mantê-los.

Somos todos aprendizes. E, assim sendo, permitam-me ajudar-nos nesta caminhada: agradeçamos, minha gente! Digamos ao outro o que pensamos – hoje, não amanhã. Deixemos transparecer ao outro quando felizes ficamos. Demos os necessários retornos.

Se acharem que faz sentido, pensem sobre isso.

E, de verdade, gratidão por me ajudarem a ler a vida.

Torço por você.

NINGUÉM MUDA O MUNDO

Ninguém muda o mundo.

Demorei a me convencer disso. E, portanto, a escrever sobre isso.

Resisti até agora, o presente momento em que me rendo e escrevo para que, antes de você, eu possa ler: ninguém muda o mundo.

Dez anos atrás, quando entrei na faculdade de jornalismo, decidi mudar o mundo. Incentivado pelas discussões acaloradas de uma juventude tipicamente rebelde de universidade pública, desejei ser repórter para mudar aquilo que não considerava correto.

Era preciso, afinal, que alguém se dispusesse a apontar o dedo, tirar máscaras, provocar dúvidas, fazer as pessoas despertarem e revelar aquilo que eu me propunha a acreditar como verdade.

Em alguns muitos momentos da minha caminhada como cristão, também alimentei a certeza de que eu precisava mudar o mundo. A vontade de que todos ao meu redor vivessem aquilo que eu vivia era tão grande que o natural era isto: querer mudar o mundo.

Continuo a me revoltar com Big Brother e tantas outras idiotices que nos empurram goela abaixo como coisas bonitinhas e glamourosas. Fico triste – de verdade – quando escuto o eco dos televisores ligados no BBB, principalmente durante as terças-feiras à noite.

Ainda sinto repulsa à ideologia impregnada na juventude – sobretudo a de Brasília – de que serviço público é sinônimo de felicidade e estabilidade. Sofro com cada comentário espontâneo e sincero do tipo “quero ganhar muito e trabalhar pouco”.

Tenho gastura da relação que muitos de nós fazem questão de ter com as redes sociais. Fico realmente assustado com tamanha exposição, carência, narcisismo e a capacidade de tornar a vida virtual mais interessante que a real.

Provoca-me medo a idolatria aos outros, a vontade de ser como celebridades, a exaltação a seres de carne e osso aureolados pela fama e pelo poder. Tudo isso vez ou outra chega a causar angústia. Mesmo.

Há algum tempo, decidi que não usaria o espaço deste blog para falar de mim, para escrever coisas que eu penso assim tão escancaradamente. Não é essa a ideia do blog. Mas hoje aqui estou, reconhecendo minhas chatices, meu jeito às vezes rabugento, crítico ao extremo.

Minhas opiniões continuam firmes, ao menos por ora. Elas são fruto do que já vivi, presenciei, experimentei, ouvi e percebi lendo a vida.

Mas estou convencido de que nem eu nem você nem ninguém mudam o mundo.

Sou capaz de mudar única e exclusivamente a mim mesmo.

Se achar que faz sentido, pense sobre isso.

Torço por você.

Viciados em novidades

A mania pelo instantâneo e a fissura pela superficialidade, traços marcantes do modo de viver atual, têm nos tornado insaciáveis.

Todos corremos o risco de cair nesta armadilha: negar a rotina para buscar sempre algo novo, que logo, logo se tornará velho. É um ciclo maluco, angustiante e sem muito sentido.

Não sei vocês, mas é essa a impressão que tenho quando escuto gente dizer por aí não aguentar um trabalho ou um namoro, por exemplo, por muito tempo.

Do jeito que a era virtual e conectada nos ensina a encarar a vida, é lógico que compromissos – de todos os tipos – vão se tornar maçantes.

Justamente porque criamos repulsa àquilo que se repete: tem de postar alguma coisa sempre, tem de atualizar sempre, tem de mudar de foto sempre, tem de instigar um novo debate sempre, e por aí vai.

Estamos na era das modinhas e das piadinhas que duram, no máximo, um mísero mês. Depois disso, acabou, minha gente.

Sem nos aprofundarmos em quase nada, estamos ficando reféns de novidades, ávidos por novas doses do novo. Quase viciados.

E a rotina? Pobre rotina. Nesse raciocínio, ela se transforma em uma clássica crise de abstinência. Em mesmice, em algo realmente chato.

Mas não há outra saída.

É na rotina que a gente de verdade pode se conhecer e conhecer o outro. É no dia-a-dia que a gente constrói o nosso caráter. É sem a cegueira que as novidades muitas vezes provocam em nós que descobrimos as essências.

Se achar que faz sentido, pense sobre isso.

Torço por você.

Feliz 2013!

Este é o último post do ano. Escrevo pra mim. E torço para que possa servir de alguma forma para algum de vocês. Simples, repetitivo, quase infantil. Autoajuda para alguns. Leitura fácil para outros. Mas sei que se colocarmos em prática uma ou outra coisa disto aí, leremos a vida de maneira mais autêntica.

1.    Curta a vida. A sua vida, não a dos outros. Tire os olhos do que os outros têm e dê valor ao que você tem. Deixe de vislumbrar coisas que estão por vir, deixando de aproveitar o que já veio. Preocupe-se menos com o que os outros pensam de você. Dê menos peso ao julgamento alheio.

2.    Exponha-se menos a quem pouco interessa se expor e se abra sem medo a quem vale a pena. Não faça da sua vida um reality show nem coloque suas decisões para serem avaliadas em assembleia. Em contrapartida, revele seus sentimentos e tire as máscaras diante de quem considere importante.

3.    Crie menos expectativas. Elas quase sempre nos tiram o foco e viram armadilhas. Espere menos dos outros, tão falhos e limitados quanto você. Esforce-se, ao menos, para não esperar aplausos nem vaias. Livre-se da dependência do reconhecimento e, assim, seja mais livre, leve e solto.

4.    Ame. De verdade. Ame para o bem do outro, não para o seu bem-estar. Ame numa entrega sem reservas. Faça sua parte. Dê o sangue. E não canse de buscar ser melhor. Sempre será preciso ser melhor. Policie-se. Saia da zona de conforto. Desconfie de suas prepotências. E dependa mais de Deus.

Um 2013 de desafios e conquistas é o que desejo pra você!

O principal

O que disse o pai de uma das crianças sobreviventes do último massacre americano:

“A gente se encarrega tanto das coisas do dia a dia que às vezes a gente esquece de quem está do lado da gente. Então, acho que o importante da vida é você viver o principal. O que é o principal? É quem você ama, é quem está perto de você. É sua família, são seus filhos”.

 

Limitados e finitos

Somos limitados e finitos. É da nossa essência, da nossa natureza. Não há como ser diferente.

Buscar a perfeição é negar a própria natureza humana.

Mas é incrível nossa mania de divindade.

Repito: somos limitados e finitos.

Se acordássemos todos os dias e nos lembrássemos disso, talvez faríamos coisas mais grandiosas. Ou pelo menos faríamos o que tem de ser feito.

Ocorre que estão nos ensinando – e nós estamos aprendendo – uma lógica contrária: a de que somos “foda”, de que damos conta de tudo, de que podemos fazer o que quiser…

Poderia até ser uma estratégia legal, se fosse condizente com a realidade.

Quem busca ser o melhor se esquece de fazer o melhor.

A busca pela perfeição, em todos os sentidos, nos cega.

Vamos errar, decepcionar, ter medo, fraquejar… Faz parte do combo da vida.

Isso é tão óbvio e parece ser tão simples, mas hoje em dia soa esquisito reconhecer limitação. Parece discurso de fracassado, de gente pessimista.

Mas, percebam, é justamente o contrário.

As pessoas mais prepotentes e metidas são, igualmente, as mais inseguras.

As que buscam insanamente um corpo perfeito são as que menos têm para oferecer fora o tal corpo, que, aliás, nunca será perfeito.

Se possível, pense sobre isso e tente se aceitar limitado e finito.

Reconhecer misérias, fraquezas e medos é a melhor maneira de enfrentá-los.

Torço por você.

Não existe mais “natureza”

A entrevista concedida pelo pesquisador e ambientalista australiano Peter Singer, professor de bioética da Universidade Princeton, ao jornal O ESTADO DE S.PAULO é incrível.

O texto completo está aqui.

As imagens do furacão Sandy sobre Manhattan lembram muito os filmes de catástrofe em Hollywood, que atraem multidões aos cinemas. Qual é o efeito desses grandes eventos naturais sobre a autoestima e a imaginação do homem atual?

Em primeiro lugar, deixe-me dizer que não devemos admitir que o furacão Sandy foi um evento “natural”. Cientistas que pesquisam mudanças climáticas induzidas pela atividade humana já haviam previsto que eventos climáticos extremos iriam se tornar mais comuns. Por sua intensidade e força, é praticamente certo que o furacão esteja conectado aos danos que causamos ao meio ambiente. No que se refere ao clima, assim como às plantas, animais e tudo o que chamamos de “ambiente natural”, não existe mais “natureza” neste planeta: estamos vivendo numa era em que a atividade humana afeta tudo, em todas as partes do mundo. Dito isso, tempestades extremas como essa, e também terremotos e tsunamis, evidenciam nossa ingenuidade ao imaginarmos que nosso conhecimento científico é suficiente para nos proteger deles. Às vezes podemos prever esses eventos, o que evidentemente nos ajuda a salvar muitas vidas, mas ainda assim eles mostram quão pífios podem ser nossos melhores esforços para enfrentá-los.