A equipe do Correio Braziliense foi enviada ao interior da Bahia, a uma região a cerca de 700km de Brasília, com a missão de conhecer o passado de Ademar Jesus da Silva, o homem que confessou ter matado seis adolescentes em Luziânia (GO). O mistério foi desvendado no fim de semana passado.
Na última terça-feira, por volta das 8h, eu, a repórter fotográfica Monique Renne e o motorista Everaldo Brasil chegamos ao município de Serra Dourada, onde Ademar nasceu e viveu até os 24 anos, segundo familiares.
Logo na entrada, nosso carro adesivado com o nome do jornal chamou a atenção dos moradores. Todo mundo já sabia do que se tratava. Nas ruas, não se comentava outra coisa.
Nosso primeiro destino foi a delegacia da cidade, bem pequena, com apenas dois funcionários. Antônio, o carcerário, nos contou que o delegado só chegava após as 12h. Vinha de Santa Maria da Vitória (BA), a quase 70km dali, onde também nós estávamos hospedados e montamos nossa base. Em Serra Dourada, o sinal dos celulares e a internet não funcionavam bem.
Antônio nos adiantou o que sabia e o que ouvia falar na cidade. Disse também que já havia começado a vasculhar os papeis para ver se encontrava alguma coisa sobre o pedreiro assassino. Tudo na delegacia é manual.
Serra Dourada é uma minúscula cidade. Tem pouco mais de 18 mil habitantes e gira em torno da agricultura. O último homicídio, segundo Antônio, ocorreu em dezembro passado, após uma briga de bar. Havia um único preso na delegacia: um homem, por porte ilegal de arma.
Dali, seguimos para o fórum, perto do centro, onde não há promotor nem juiz fixos. Fomos orientados a conversar com Henrique, o oficial de Justiça e faz-tudo do fórum. Encontramos uma fila de pessoas em frente à sala dele. Era gente da cidade que passou em concurso público e, com Henrique, precisava tirar o documento nada consta.
Contamos a Henrique o motivo da nossa presença ali: queríamos checar se havia algum processo no nome do assassino de Luziânia. Henrique ficou de procurar e pediu que retornássemos depois.
Na saída do fórum, conhecemos Terezinha, uma moradora de 47 anos que nos falou da sua tristeza em ver o nome da cidade ganhar uma fama tão ruim nacionalmente. Durante a conversa, ela chamou Suely, que passava pela rua. Suely também nasceu em Serra Dourada. Foi ela quem nos informou da existência da mãe do assassino.
As informações que tínhamos antes de sair de Brasília eram de que o pai do pedreiro vivia na cidade. A mãe provavelmente estaria morta. Mas era justamente o contrário: o pai estava morto e a mãe, viva. “O nome dela é Rosa, mora em Santana”, contou-nos Suely.
Decidimos pegar a estrada com destino a Santana, a 40km de Serra Dourada. Antes, porém, passamos no hospital da cidade à procura de um primo do assassino. Ele não estava de serviço naquele dia.
Em Santana, paramos no primeiro posto de gasolina e perguntamos sobre dona Rosa. Indicaram-nos o alto da serra. Dona Rosa vive praticamente na última casa da cidade, bem escondida, na periferia da periferia.
Na entrada da casa de dona Rosa, encontramos deitado em um banco do lado de fora um dos irmãos de Ademar: Edinelson, que guarda sequelas de uma pancada que, segundo a mãe, levou em um bar, no tempo em que também morou no Distrito Federal, no Guará II.
Pedimos licença a Edinelson e ele nos permitiu que entrasse. Domingos, outro irmão, via tv na sala, deitado no sofá. Levantou-se quando entramos e chamou a mãe, dona Rosa, que estava na cozinha.
Dona Rosa nos acolheu como hóspedes. Sentamos, ali mesmo na sala, nos apresentamos e perguntamos se ela era a mãe de Ademar. Ela confirmou e começou a falar. Rosa e Domingos desabafaram durante mais de duras horas.
Nada, naquele dia, poderia ser mais intenso do que a conversa com a mãe de Ademar. Voltamos para Santa Maria da Vitória, nossa cidade-base, e passamos o resto da tarde enviando à redação as informações conseguidas até então.
Às 8h30 do dia seguinte, quarta-feira, chegávamos a Riachão, povoado pertencente a Serra Dourada, a pouco mais de 20km da entrada do município. Foi ali onde Ademar nasceu. Na primeira casa em que paramos – já tínhamos referência –, encontramos Nequinho, outro irmão de Ademar, que, mesmo desconfiado, aceitou conversar com a reportagem.
Em seguida, no mesmo povoado, sentamos para ouvir os pais da jovem com quem Ademar teve dois filhos: seu Edilson e dona Terezinha. A filha deles morreu aos 25 anos, segundo os próprios pais, vítima de um derrame cerebral. O casal de filhos de Ademar mora com os avós.
Depois seguimos até a escola onde os filhos biológicos de Ademar estudam, em Serra Dourada. Conversamos com a diretora da unidade de ensino, para saber como eles tinham reagido ao episódio. A menina, de 18 anos, não quis falar conosco. Não insistimos. O adolescente de 14 anos, nem tentamos.
Por volta das 11h30, voltamos ao fórum, onde Henrique, o oficial de Justiça, havia separado para nós o processo em que consta o pedido da prisão preventiva de Ademar por tentativa de homicídio. Enquanto líamos o processo, chegou o delegado da cidade, com quem conseguimos ainda mais informações.
A todo instante, pessoas nos abordavam para contar algo que sabiam ou que ouviram dizer. A cidade estava revoltada, abalada. Os familiares demonstravam receio, sofriam pelo ocorrido e repetiam não ter culpa.
Naquela tarde, consolidamos as informações colhidas e, com o aval do jornal, retornamos na manhã do dia seguinte. Voltamos para casa pensativos diante de tudo o que ouvimos. Por mais que se tente, continua muito difícil entender o que levou Ademar a cometer tanta brutalidade.
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A quem interessar, os áudios e os vídeos das entrevistas estão nas seções “áudios” e “vídeos” do site do Correio.