O Túlio da Esplanada
agosto 31, 2007 por Diego Amorim
À vista dos ministérios e do Congresso Nacional, Túlio, de 14 anos, caminha por entre os carros parados em um dos sinais da Esplanada. Vestido com bermuda florida e piercing pregado na orelha, o garoto que está no Orkut e tem até MSN se aproxima dos motoristas todo sorridente e oferece as jujubas e os chicletes que vende, no mesmo lugar, há cinco anos.
Túlio não sabe quem trabalha naqueles prédios que o cerca. Nem lhe interessa saber. Diz que não vai fazer diferença conhecer essas coisas de política, que tanto faz quem seja presidente, governador, deputado ou senador. Ele só quer saber de estudar, trabalhar e se divertir.
- Meu maior sonho? Não cair na malandragem. Pra não morrer, né?
Túlio nunca foi de ficar à toa na rua. Faz de tudo para fugir daquilo que ele sabe que pode comprometer seu futuro. Sincero, afirma que não saberia mais viver sem o trabalho, pois já se acostumou com o dinheiro que ganha. Daqui a alguns anos, espera ser bombeiro, policial, delegado ou qualquer coisa assim.
De segunda a sábado, do finalzinho da tarde até para lá das dez da noite, Túlio está ali, compenetrado no trabalho. O objetivo diário (cumprido quase sempre por ele) é voltar para casa só depois de vender toda a mercadoria: são duas caixas de jujubas, uma de pastilhas de hortelã e 40 chicletes.
Ele é quem gerencia o próprio negócio e cuida da grana que fatura no sinal – de R$ 40 a R$ 50 por dia. Como gente grande, ele explica o que faz com o dinheiro:
- São três coisas. Um pouco eu dou para a minha avó (por quem é criado desde os nove meses de vida) e ajudo a pagar as contas de água e luz. A outra eu junto na poupança (isso mesmo! Túlio tem uma conta onde guarda parte do dinheiro). O restante eu compro coisas que não são tão necessárias, sabe? Por exemplo, roupa, tênis, lanche na escola, essas besteiras.
Com o lucro, Túlio também paga a mensalidade da internet que ele mesmo mandou instalar no computador de casa. O garoto não sabe quanto já tem guardado. Não faz questão de saber por que tem medo de ficar com vontade de gastar. A meta da vez é juntar o suficiente para comprar um videogame.
- Quando tiver (na poupança) o tanto que der para comprar um, o marido da minha avó vai me avisar.
O garoto garante que o trabalho vem depois dos estudos. Ele só sai de casa depois de fazer o dever da escola, que freqüenta pela manhã. Túlio mora em Samambaia, cidade a cerca de 30 quilômetros de Brasília. Divide uma casa de dois quartos com a avó e o marido dela. A mãe vive no interior de Tocantins, para onde ele costuma viajar todo ano. O pai, ele só lembra de ter visto uma vez, mas sabe que mora em Goiânia.
O sorriso constante no rosto é uma marca de Túlio. Os motoristas de ônibus que circulam pela Esplanada já o conhecem bem. Sempre que passam por ali, dão uma buzinada e acenam para o garoto.
- Tem mais gente boa do que ruim, sabia? Alguns fingem que não me escutam. Teve um até que gritou comigo um dia. Só que a maioria, quando não quer, só fala que não quer e pronto. Não precisa de grosseria, né?
Túlio é o “menino bom” da avó. Ele conta que ela vive dizendo por aí que tem orgulho do neto. Com essa bola toda, cadê as namoradas?
- De vez em quando vêm umas para o meu lado. Mas, vou te falar, eu tô é fraco ultimamente…
Esse menino tem carisma de sobra. Nota-se isso no pouco tempo em que, de dentro do carro, se espera o sinal abrir. Com cara, fala e jeito de menino, ele dá um show de esforço e responsabilidade. Túlio, sem sombra de dúvida, torna a Esplanada dos Ministérios mais leve, mais alegre.
- Posso falar uma coisa? Sabe o que eu mais gosto? De rir!
Poxa, fiquei de cara saber que ele consegue poupar!!!! Se todos tivessem essa consciência, muita coisa seria diferente. E que Deus o guie para longe a “malandragem”.
Esse é o Diego Amorim que sabe ler a vida!
Muito bom o texto moleque!
Você é lindo e escreve lindo!!!! um beijo
Nooooossa.. Dificil de acreditar viu..
E ela se torna mais interessante quando tu conta.
Um dia eu vo vender balinha no sinal, tu vai me entrevistar, e eu vo te falar que aquele dinheiro é pra pagar meus estudos e aprender a escrever que nem tu… xD~ ahuehaueuahuehae um dia..
O mlk escreve bem.. convenhamos.. mas lindo?!?!
Contenha-se!