“Capinhas” com muito orgulho
dezembro 14, 2007 por Diego Amorim
Odair José Barreto era acostumado a dirigir tratores, arar a terra e plantar feijão em Ibititá, uma cidadezinha no interior da Bahia com menos de 20 mil habitantes. Não tinha muita pretensão de sair dali até as férias em que passou em Brasília. Na capital do país, conseguiu um bico de segurança no Supremo Tribunal Federal (STF), acabou ficando, ficando e hoje orgulha-se de ser assistente do ministro Eros Grau.
- Nunca, nunca imaginei. É a Suprema Corte isso aqui, né? Graças a Deus! Eu saí da roça. Nunca imaginei morar em Brasília, fazer uma faculdade. Sou muito agradecido-, desabafa Odair, 32 anos, estudante do quarto semestre do curso de Direito.
O que é que ele já aprendeu em pouco mais de um ano nessa função? Muita coisa do mundo jurídico, claro. Mas não só.
- Eu via os ministros como deuses, gente que eu não podia nem encostar. Hoje percebo que não é bem assim. Não existe amizade entre a gente, mas eles não são intocáveis como muitos imaginam-, garante Odair.
Mauro Rodrigues Benvindo, 30 anos, assistente do ministro Ricardo Lewandovski, também tem uma trajetória que chama atenção. Entrou no STF em 1998 para ajudar a carregar móveis na mudança de gabinetes. O contrato era de apenas um mês. O prazo acabou, ele foi alocado para a equipe da limpeza, depois virou office-boy em gabinete, digitador e, há um ano e três meses, é assistente.
- A gente faz por merecer. É mais do que privilégio-, ressalta Mauro, que se formou em Turismo e fez duas especializações – em Ecoturismo e em Docência do Ensino Superior.
Mauro é protagonista de um episódio que faz muita gente cair na gargalhada. Por ser negro, certa vez ele foi confundido com o ministro Joaquim Barbosa, que também é negro. Um estudante aproximou-se dele na lanchonete do tribunal, fez reverência e, todo entusiasmado, soltou um "boa tarde, ministro".
- Estava tão apressado, fiquei tão sem reação, que nem disse que não era. Passei batido-, lembra Mauro.
E quando o autor do "mico" é o próprio assistente…
- Certa vez eu pisei na capa do ministro antes de começar a sessão. Foi distração mesmo. O nozinho da capa deu aquela enforcada nele. Pedi desculpa e ele levou numa boa-, recorda Gleydson Perry, 34 anos, assistente do ministro Carlos Ayres Britto.
Nada, no entanto, se compara à gafe mais comum e mais abominável que um assistente pode cometer: esquecer a cópia do voto do ministro.
- Acontece mesmo. A presidente chama o processo, o advogado já está na tribuna e o ministro não tem o voto. Aí tem que se virar-, relata Francisco de Assis Sancho, assistente do ministro Cezar Peluso há quatro anos.
O grande professor dos assistentes chama-se Flordovaldo Furtado Cunha, o seu Flor. São 26 anos de trabalho. Já auxiliou os ministros Célio Borja, Francisco Rezek, Nelson Jobim e, agora, Carmen Lúcia.
- O segredo é ter calma, responsabilidade e, acima de tudo, manter a simplicidade-, ensina seu Flor.
Os mais novos fazem questão de pôr em prática as dicas dele. Durante as sessões, atenção total.
- Já conheço o barulho da cadeira do ministro. Quando escuto, opa (!), é a cadeira do meu chefe. No começo ele tinha que me olhar, fazer gestos. Hoje não. Basta ele começar a virar que já sei que ele quer alguma coisa-, relata Danilo Cerqueira, 24 anos, assistente do ministro Celso de Mello há um ano.
- É certo: quando você vê alguma correria durante a sessão é porque teve algum erro-, alerta Edinezer Júnior, assistente do ministro Marco Aurélio Mello.
Muitos vêem os assistentes como simples serventes. Esquecem que a presença deles ali é, sim, fundamental para o bom andamento das sessões. Edinezer acredita que, para ganhar mais respeito, é preciso abolir o termo "capinha" do imaginário das pessoas. O que, para ele, logo, logo será fácil.
- Pra quê capa? Não condiz com a realidade do nosso país. O Brasil é tropical, faz muito calor aqui. Em breve vai acabar esse negócio de usar capa, você vai ver-, aposta.
Até lá, talvez continuarão sendo "capinhas". Com muito orgulho.
Passei a semana toda sem vir por aqui. Olha só que maldade fiz comigo. Gosto de ler o que vc escreve. Gostei muito deste texto. E da sua descoberta, sobre as pessoas.
Muitas estão ao nosso lado e não vemos. E quando vemos (eu) não sabemos contar.
Então acho fantástico alguém que escreve bem, e tem a sensibilidade para perceber as pessoas.
Sucesso!
quando não estou aqui
vc me encontra neste blog
http://pensamentoefotos.blogspot.com