Uma visita guiada pela Reitoria ocupada da UnB
abril 17, 2008 por Diego Amorim
Pela primeira vez desde a publicação de uma matéria referindo-se ao "forte cheiro de maconha no local", foi autorizada a entrada de um jornalista no prédio da Reitoria da Universidade de Brasília, ocupada por estudantes desde o dia 3 deste mês. Depois de muita insistência, tive acesso aos quatro andares do prédio. A única condição foi de que um dos ocupantes me acompanharia.
Pela porta quebrada no dia da invasão, entrei na ante-sala e no gabinete do reitor, onde ninguém dorme. Ao ver que eu fazia fotos da bagunça no espaço, o estudante que conduzia a "visita guiada" ordenou que as imagens fossem apagadas. Há muitos papéis espalhados pelo chão, armários estão abertos e um caixão ocupa a mesa do reitor. Em uma sala bem ao lado do gabinete, uma máquina de fotocópia estava ligada. Os estudantes estão usando-a para imprimir os panfletos distribuídos em salas de aula e durante as assembléias.
"Pensamos em abrir a sala da Secretaria de Comunicação, onde tem muitos computadores, mas achamos melhor não mexer em nada", disse um dos ocupantes, que garantiu que a porta quebrada foi o único dano causado pela ocupação. "Ah, e um copo. Eu quebrei um copo", confessou pouco depois.
No terraço do prédio, um grupo de estudantes desobedecia à regra interna do movimento e partilhava um cigarro de maconha enquanto contemplava parte da universidade vista do alto. Perto dali, latinha de cerveja amassada e uma garrafa de vinho vazia. Em uma das três barracas instaladas no terraço, havia quem ainda dormisse. Já passava das dez horas da manhã.
Muitas outras barracas de camping ainda ocupam os corredores do prédio. Numa sala usada para reuniões, o café da manhã era servido – basicamente pão, leite, café, suco e biscoito. As portas dos departamentos estavam trancadas e não havia sinal algum de arrombamento em todo o prédio.
"Agora vamos entrar no auditório. Pode ter alguém transando", alertou o estudante que me acompanhava. Lá dentro, nada além de mais alunos dormindo em lençóis jogados no chão de carpete. "Já são 10 e 15", assustou-se uma aluna cutucando a amiga.
Os estudantes decidirão hoje se continuam ali. A tendência é que até amanhã a ocupação chegue ao fim. Alguns deles já temem que a imagem do movimento possa se desgastar caso insistam na ocupação mesmo com a renúncia de Timothy Mulholland, acusado de usar recursos destinados à pesquisa para a mobília do apartamento funcional.
PS: Estudei na UnB quatro anos. Lá, trabalhei como repórter por dois desses quatro anos. No ano passado, cheguei a ir a um jantar no tal apartamento do ex-reitor Timothy. É de fato um luxo. E também acho que toda essa história revela, sim, decisões imorais, que não condizem com a realidade de uma universidade pública. Mas também conheço bem esses alunos da UnB. Cobri eleições do DCE – o Diretório Central dos Estudantes. Acho legal que o movimeto estudantil queira renascer, mas muitos, muitos mesmo, estão ali pela farra. Não estão indo a aula. E até nem sabe o motivo da ocupação.
Atualização - Sai há pouco da Reitoria da UnB. Prevaleceu o bom senso e amanhã pela manhã a estudantada vai arredar o pé do prédio.
Isso tinha que ter sido publicado no Noblat… malditos!
Concordo, Paulinho.