Coisas do Brasil (mais uma)
outubro 15, 2008 por Diego Amorim
Tudo o que não é moral caiu na vala da normalidade neste país. Segue matéria publicada hoje no Correio Brazliense:
Diego Amorim
Da equipe do Correio
O cantor sertanejo Daniel atraiu 30 mil pessoas ao centro de Luziânia em 20 de junho deste ano, em um show que custou R$ 179 mil aos cofres da prefeitura. A festa era para inaugurar o Centro de Cultura e Convenções do município goiano, situado a 65km de Brasília. Quase quatro meses se passaram, o prefeito Célio Silveira (PSDB) foi reeleito no último dia 5, mas até agora apenas a biblioteca pública do complexo projetado por Oscar Niemeyer está aberta. A população de cerca de 200 mil habitantes ainda espera a real inauguração da galeria de artes e do auditório onde, quando começar a funcionar de verdade, haverá apresentações teatrais e exibições de filmes.
Na noite do show do cantor sertanejo, o prefeito Dr. Célio, como é conhecido na cidade, subiu ao palco montado no meio da rua acompanhado do vice-governador de Goiás, Ademir de Oliveira Menezes, e de pelo menos outros quatro secretários. Não cansou de enaltecer a construção orçada em R$ 5.634.458,34 — R$ 3 milhões de investimento da prefeitura e o restante, do governo estadual. A obra, no entanto, não estava pronta naquela sexta-feira. A construtora só entregará hoje o prédio que abriga a galeria e o auditório. E, mesmo assim, o espaço não será aberto ao público de imediato.
Reeleito, Dr. Célio decidiu terceirizar a administração da parte cultural do complexo. Alegou que a prefeitura poderia se sobrecarregar com o trabalho. De acordo com o prefeito, está em curso a licitação para a escolha da empresa que assumirá o serviço. Ele disse não ter idéia de quando as atividades terão início. Estimou, sem muita confiança, um prazo de, no mínimo, mais 20 dias. “Tudo o que um prefeito faz tem sentido político. Achar que não tem é hipocrisia. É lógico que eu quis inaugurar a obra. Mas, qual o prefeito que não é político, né? (Risos) É meio difícil, né?”, argumentou.
Nas ruas, os moradores tentam explicar o que chamam de inauguração política. “Isso está aí de enfeite”, comentou a estudante Elizete Ferreira, 17 anos. “São coisas da política. É assim”, avaliou o taxista Waldemar Jacinto, 56.