Um dia em Radiolândia
janeiro 25, 2009 por Diego Amorim
Acabei escrevendo demais sobre o trabalho do Projeto Rondon que acompanhei no povoado de Radiolândia. A versão bruta da matéria segue abaixo, para quem tiver saco de ler. Para os que preferirem uma versão resumida e editada, basta dar uma olhadinha no que foi publicado hoje no jornal. Está aqui, inclusive com uma videorreportagem.
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Radiolândia inexiste para o Brasil. O povoado goiano de três ruas e pouco mais de mil habitantes não aparece no mapa. As 250 casas a 38km de Pirenópolis e a 188km de Brasília não têm endereço nem saneamento básico. O lugarejo surgiu na década de 1950 ao redor de uma fazenda da região e nunca soube o que é ter restaurante, farmácia, banco, posto de saúde, polícia, bombeiros, nada disso. Aprendeu a conviver com duas igrejas — uma católica e outra evangélica —, uma quadra de esportes, a escola estadual e, atualmente, sete botecos. Metade da população trabalha em um frigorífico na entrada do povoado. A outra tira o sustento basicamente da plantação de banana ou de programas sociais do governo federal.
Esquecido dos políticos que se revezam no poder no Goiás, o povo de Radiolândia vibrou quando viu chegar o ônibus que trazia os 18 alunos do Projeto Rondon — seis de Brasília e 12 de Goiânia. Eram 10h em ponto da última terça-feira. Quarenta pessoas aguardavam para pegar a senha do atendimento médico no salão da igreja e 22 crianças faziam fila para brincar no pula-pula montado no pátio da escola. Seu Chico, 61 anos, um líder nato daquela comunidade, já tinha tratado de espalhar a boa nova: “Falei pra todo mundo vir para cá”. Nos três dias de atividades naquele povoado, pelo menos 300 habitantes foram de alguma forma atendidos pela equipe que topou a experiência de conhecer a vida como ela é.
A notícia de que um pessoal de fora estava por ali chegou rápido à fazenda onde mora Floripes Batista, 66 anos. Assim que soube da novidade, ela correu para ser atendida pelos acadêmicos de medicina e de enfermagem, que trabalhavam supervisionados por um médico. Fazia mais de uma década que Floripes, diabética, não se consultava. “O (médico) que tratava de mim foi embora e nem deixou endereço. Só passou um remedinho pra eu tomar o resto da vida”, contou. No consultório ao lado, o vaqueiro Antônio Barbosa, 64, reclamava de coceira nas pernas: “Peguei alguma coisa que faz coçar demais da conta a noite toda”. Dona Floripes passou o dia medindo a pressão que vez ou outra, explicou ela, estava “altiando”. Seu Antônio voltou para casa depois de retirar dois tubos de pomada na farmácia improvisada pela turma do projeto.
Sabedoria popular
Enquanto isso, na sala da veterinária, o lavrador Germano Ribeiro, 32, chegava para vacinar o vira-lata Toquinho, de quatro meses. “Esse aí um dia apareceu lá em casa. Já pelejei pra ele ir embora, mas ele não vai, não”, explicava, enquanto o cachorro levava uma agulhada na orelha sob o olhar apreensivo de crianças. “Aqui, sem o suporte adequado, tem que diagnosticar pelo olhar clínico. É um desafio e tanto”, matou a charada Gabriel Jacobina, 25 anos, residente do Hospital Veterinário das Faculdades Integradas Upis. No meio da rua, o cavalo Bain e a égua Rucinha do fazendeiro Oscar Fernandes Alexandria, 43, estavam pela primeira vez diante de um veterinário. “Um dia esse cavalo rolou no chão de tanta dor. Aí fiz uma simpatia que ouvi os outros falar: meti uma agulha nele e ele melhorou”, lembrou o fazendeiro.
É a tal sabedoria popular que dita a vida em Radiolândia. O estudante de enfermagem da Universidade Católica de Goiás (UCG) Renato Bueno, 24 anos, penou para convencer alguns moradores de que colocar fezes de gado em feridas pode infeccionar. “A gente aprende muito mais aqui do que na monotonia da sala de aula. Não existe nada melhor que isso”, comentou Bueno, antes de iniciar uma palestra sobre primeiros socorros, acompanhada atentamente por Abílio Soares de Almeida, 82. O aposentado até ganhou um chester da organização do projeto por ter sido a cobaia do universitário durante a apresentação. Depois, ele fez questão de deixar claro: “Tenho a memória boa. Deus livre que não seja preciso usar essas coisas (as dicas de primeiros socorros), mas se precisar um dia eu vou saber”.
Batendo de porta em porta no povoado, alunas de direito e de turismo da Upis conheceram Maura Macieira da Luz, 75 anos, a única artesã de Radiolândia. “Até pra Goiânia já foi os tapetes que eu faço”, orgulhava-se ela, ao exibir a máquina de tear construída em 1943, hoje tratada como relíquia no quintal da casa. As estudantes também descobriram a mais nova dupla sertaneja da região: os irmãos Ronaldo, de 9 anos, e Reginaldo, 6, que acabaram arrastados para dar uma palhinha no pátio da escola. “Esses meninos têm talento, moço. Inclusive, um pessoal de Anápolis (a 40km dali) quer que eu leve eles pra lá”, contou todo orgulhoso o pai, o pedreiro Ronildo Gomes, que faz os filhos comerem ovo cru, como retratado no filme Dois filhos de Francisco. “Mas é bão”, se intrometeu o mais novo, ao ouvir a conversa.
Muito trabalho
Até a hora em que o sol resolveu se esconder atrás da serra, ninguém parou em Radiolândia: nem a população, muito menos os voluntários. Gabriel Farinasso, 26, outro residente de veterinária da Upis, fez de tudo um pouco. “Sou multiuso”, anunciou, no momento em que ensinava a garotada a escovar os dentes. Perto dos consultórios, a turma teve trabalho foi para não deixar o fazendeiro José Rodrigues do Carmo, 77, ir embora antes de ser liberado. Apesar de a pressão dele estar lá em cima — 230 por 110 —, o homem não parava quieto. “Só vim ‘correr o ar’ um pouquinho aqui fora, daqui a pouco eu volto”, prometia, toda vez que saía do salão da igreja.
O Projeto Rondon é uma troca. A população que o acolhe ganha, mesmo que por apenas alguns dias, o que não tem e mesmo nunca teve. Os participantes, por sua vez, apelidados de rondonistas, vivenciam o que teoria alguma consegue transmitir. “O universitário tem a chance de ser um cidadão e um profissional diferenciados. Justamente porque viu e sentiu os problemas do país”, destacou o secretário-executivo da Associação Nacional dos Rondonistas, Estanislau Oliveira. “É uma nova vivência, uma oportunidade de ampliar horizontes”, completou Gilwan Amarante Campos, professor da Upis, a única instituição de ensino de Brasília que participa da operação batizada de Pirineus.
O trabalho começou no último domingo e segue até a próxima quarta-feira. Cinco dos 10 povoados de Pirenópolis serão atendidos, a pedido do prefeito recém-empossado Nivaldo Melo. São eles: Radiolândia, Caxambu, Índio, Jaranápolis e Serra do Misael. A Associação dos Rondonistas em Goiás e no Distrito Federal contaram com o apoio da Upis, da UCG, da Universidade Federal de Goiás e da Universidade Salgado de Oliveira (Universo) — essas três últimas de Goiânia. A operação foi organizada em apenas um mês e envolveu alunos de enfermagem, medicina, veterinária, turismo, direito e jornalismo.
Médico uma vez por mês
Ao final da Operação Pirineus, a primeira no interior de Goiás desde a reativação do Projeto Rondon, em 2005, a prefeitura de Pirenópolis receberá um diagnóstico do que foi feito em 10 dias de trabalho. Em Radiolândia, cidade em que o Correio acompanhou um dia de atividades, a saúde pública está decadente. Um médico aparece por lá uma única vez por mês. E atende apenas 15 pacientes. “É um sistema que não vamos mudar a curto prazo. Mas exigiremos postura mais humana dos médicos”, comentou o secretário de saúde do município, Hisham Hamida.
A continuidade do trabalho de assistência médica é uma preocupação dos próprios rondonistas. “Se não tiver continuidade, não vai adiantar nada”, destacou o aluno de medicina da Universidade Federal de Goiás (UFG) Maik Moura, 27 anos. O prefeito Nivaldo Melo, do PP, disse que este ano pretende montar um posto de saúde para atender os povoados visitados pela equipe. “Essa operação é um negócio que o pessoal nunca viu lá. Não posso deixar de dar uma resposta à população”, afirmou Melo.
O prefeito também foi cobrado pela turismóloga da Upis Patrícia Pereira, 34 anos. Ela aproveitou a presença do político em uma das avaliações que é feita todas as noites e pediu ajuda para registrar um jovem deficiente de 26 anos que mora em Radiolândia e até hoje não tem documentos de identificação. Assim, também não tem acesso aos benefícios do governo. Melo anotou o pedido em um guardanapo.
Radiolândia, esquecida dos políticos, não recebe visitas. Só atrai gente de fora na festa dos carros de boi, na semana de Corpus Christi, quando tem churrasco de graça durante três dias na beira de um córrego — a cachoeira mais próxima fica a 5km. A estudante de direito da Upis Loiane Barbosa, 19 anos, descobriu que a população não sente falta dos turistas, a quem chamam de “gente estranha”. Os moradores, detalhou ela, têm medo de perderem o sossego.
PARA SABER MAIS
A ideia do Projeto Rondon surgiu em 1966, no Rio de Janeiro, na época ainda Estado da Guanabara. Em julho do ano seguinte, saía dali rumo ao Território de Rondônia a primeira equipe de rondonistas, constituída por 30 estudantes e dois professores. Eles viajaram em uma aeronave C-47, cedida pelo Ministério do Interior, e ficaram 28 dias na região. O objetivo não era fazer “turismo social”, tampouco “lazer cívico”. A intenção, desde o início, era levar as pessoas a conhecerem a realidade brasileira e a trabalharem em benefício das comunidades visitadas.
Em 1989, no governo do presidente José Sarney, o projeto foi extinto. Àquela altura, mais de 350 mil universitários de todo o país já tinham se envolvido nas atividades. Para não paralisar de vez o trabalho, os primeiros participantes do projeto criaram, logo em 1990, a Associação Nacional dos Rondonistas, cuja sede está em Brasília. Como ação do governo, o Projeto Rondon foi reativado em janeiro de 2005. Atualmente, as grandes operações são coordenadas pelo Ministério da Defesa e as mais locais ficam a cargo da associação.
O nome Projeto Rondon é uma homenagem ao marechal Cândido Mariano da Silva Rondon, nascido no Mato Grosso, em 1865. De família simples, ele cursou matemática e ciências físicas e naturais na Escola Superior de Guerra, no Rio de Janeiro. Participou dos movimentos abolicionista e republicano e foi o responsável por estender as linhas telegráficas para o Centro-Oeste. Criou, em 1910, o Serviço de Proteção ao Índio, que deu origem à Fundação Nacional do Índio (Funai). O estado de Rondônia também é uma homenagem a ele.
Fiquei tão comovida com o ABANDONO em que se encontra o Povoado de Caxambú que resolvi deixar escrito aqui como é a situação atual da população caxambuense.
O povoado de Caxambú foi o último que passamos e é totalmente esquecido pelo poder público, não possui transporte púplico, o médico que atende os nativos só atende uma vez por mês e só até as duas da tarde (ele só atende 30 pessoas por dia).
A educação também é deficiente, não tem policia, bombeiro ou emprego.
Agora falando em turismo que é minha area, o povoado tem um potencial enorme mas infelizmente não tem acesso. Os dois km que liga o povoado a rodovia é de terra e em péssimo estado, e quando chove a situação piora. Diversão é algo raro por lá, existe uma danceteria que funciona uma vez por ano… a juventude faz uso de álcool e narcóticos para se divertirem. É lastimavel.
Ao contrario dos outros povoados eles querem que o turismo se desenvolva porque é um meio de ganhar a vida, uma vez que o único meio de se ganhar dinheiro por lá é o trabalho braçal nas fazendas (quando tem trabalho pra fazer) ou ir embora para Anápolis.
Até hoje estou me perguntando como esse povo vive? Quando não tem emprego nas fazendas, vivem do que? Comem o que?