Vítima de truculência da PM mais bem preparada do país
fevereiro 22, 2009 por Diego Amorim
Seis anos atrás fui sequestrado embaixo do meu prédio, aqui em Brasília, enquanto ia com a família entregar sopa a quem precisa.
Foram cerca de três horas de angústia e medo. Tive que ficar de cueca, levei uma cotovelada no rosto e, com um revólver nas costas, aguentei as gozações de dois homens visivelmente drogados.
Não foi fácil superar o trauma. Precisei de acompanhamento psicológico para aprender a lidar com aquelas cenas que se repetiam na minha mente até mesmo quando eu dormia.
Nada disso, no entanto, se compara ao que sinto hoje.
Passava da meia-noite desse sábado de carnaval. Depois de 10 horas ininterruptas de trabalho no jornal, fui liberado.
Um amigo convenceu-me a ir a uma festa no Guará, cidade do Distrito Federal, quase um bairro. Conheço muito pouco ali. Os endereços são confusos.
Ao telefone enquanto dirigia, ouvi a indicação de que “na primeira rua, você vira a direita”. Eu estava na segunda rua.
Desliguei o celular, engatei a ré e andei cerca de 20m, não mais que isso. Eu já estava dentro da quadra residencial.
O fluxo de veículos era zero naquele instante.
Na rua atrás, porém, acontecia um show desses que o governo está organizado no carnaval. E, por isso, havia ali um punhado de policiais militares.
Ao dar a ré, encostei em um cone da polícia, que nem chegou a cair.
Foi o suficiente para que um policial insano tirasse a pistola da cintura e, raivoso, a apontasse em minha direção.
- Ôôôô! Encosta o carro ali agora, playboy!!
O playboy aqui tem um Fiat Uno.
O crachá do jornal ainda estava pendurado no meu pescoço.
- Tranquilo amigo, estou saindo do trabalho agora.
- Encosta agora, playboy!! – insistiu o PM.
Ainda com a arma apontada para mim, ele pediu que eu saísse do carro. Outros dois policiais à paisana – sem uniforme – se aproximaram.
Coagiram-me, intimidaram-me e me trataram como um verme.
- Relaxa, gente. Pra quê isso? Não tô entendendo. Sou jornalista, tá aqui meu crachá, tava trabalhando, tava até agora com o pessoal do coronel Cintra acompanhando as blitzes de vocês.
Eu estava nervoso, muito nervoso.
- Coronel Cintra?! Vamos ligar pra ele! Ele vai adorar saber que você estava dando ré aqui no Guará… – ironizou um dos que estavam à paisana.
Perguntaram para onde eu estava indo. Disse, ainda sob a mira da pistola, que iria a uma festa, mas que não conhecia o Guará.
Os três me rodearam. Não encostaram em mim. Mas me senti sufocado. Como nunca antes havia me sentido. Nem mesmo no dia do sequestro.
Tremia como um bêbado em abstinência. Não conseguia pensar muito. Não consegui pegar o nome de nenhum deles.
- O documento e a habilitação, playboy! – ordenou o policial uniformizado.
Tremendo, tirei o documento da carteira e o entreguei a ele.
- Sem o plástico, playboy. Sem o plástico!
Tirei do plástico e dei novamente a ele.
- Da próxima vez, você fique mais esperto, playboy.
- Não é porque é da imprensa que pode fazer o que quer aqui! – emendou outro enquanto se afastavam do carro resmungando.
Disse que era jornalista como forma de provar que estava trabalhando até 10 minutos atrás. E que, portanto, era cidadão de bem, não bandido.
Poderia ter dito que era médico, advogado, jornaleiro, qualquer outra coisa.
Entrei no carro com aquele nó na garganta de arranhar a alma. Senti-me impotente, frágil. E ainda tinha muito medo.
As lágrimas ficaram entaladas. Tentei segurá-las.
Se dar ré ali estava errado, que me multassem, que me punissem como manda a lei. E eu, réu confesso, assumiria a culpa. Simples assim.
Mas, um dia definiu um amigo, PM não pensa. Ou, em geral, não quer ter o esforço de pensar. Limita-se à truculência.
Para um policial desse, vale mesmo é exercer o poder que ele tem, com uma arma em punho. Dar ordens a um playboy de Fiat Uno faz ele se sentir bem.
A multa, obrigação dele, ele não aplicou. Não olhei pelo retrovisor, mas devem ter ficado rindo da situação. Era mais um playboy intimidado.
Essa é a polícia mais bem paga do país. Essa é a polícia que se diz mais bem preparada do país. Essa é a polícia que, só para refrescar a memória, matou um torcedor antes do jogo São Paulo e Gama, no fim do ano passado.
A arma do sargento disparou sem querer e atingiu a nuca do torcedor.
Pergunto-lhes: qual a diferença daquele sargento para o policial que me abordou ontem? Eu respondo: nenhuma.
São da mesma polícia – a mais bem paga e mais bem preparada do país.
Como esse episódio, existem tantos outros para serem contados aqui na capital federal e em todo o Brasil.
Temos medo e pavor de polícia. Muitas vezes muito mais do que temos de bandido. Por que será? Justamente por isso. Por essa mesquinhez. Por esse poder usado a qualquer custo.
Talvez, desta vez, eu não precise de acompanhamento psicológico para superar o medo e a humilhação que senti.
Restará a indignação. Raiva não valerá a pena.
Raiva de nada servirá mesmo! O que fazer diante do sutil movimento do oprimido que, com um pouco de poder, vira opressor?!?
“Os três me rodearam. Não encostaram em mim. Mas me senti sufocado. Como nunca antes havia me sentido. Nem mesmo no dia do sequestro.”
Para você aprender que caráter não tem nada a ver com o que você veste, com a profissão que exerce ou a religião que segue.
É isso que eu digo… Se não sabe dirigir, pra quê tenta?? Se não fosse mau motorista não tinha passado por nada disso!!! eheh
Fico indignada junto com você, por todos os brasileiros, por você.
Não me sinto bem quando algo de ruim lhe acontece.
Quem sabe sirva para alguma matéria. Uma crônica.
abraços
Por essas e outras que abandonei meu País.
Aqui não é o melhor lugar do mundo e nem digo que ai seja o pior.
Quem me conhece sabe que nõa paro pra falar uma palavra, sequer que seja, prejorativa a respeito do Brasil. Deixo os fatos falarem por si só.
Minha resposta é automatica quanto me perguntam se sinto saudades de casa.
Aqui eu me sinto seguro…
Perdeu, prayboy.
relaxa, moleque.
é aquele papo que tivemos ao telefone. coma rma na cintura, todo mundo acha que é deus.
Chamou a mamãe?
caraca…
que triste, Diego.. dá vontade de xingar, denunciar, mandar todo mundo a merda… mas o que fica mesmo é tristeza, sensação de impotência e de que algumas coisas nunca mudam.