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Fique em paz, Kaká. E obrigado.

julho 28, 2009 por Diego Amorim

No fim do dia, Liliana espera o filho Kaká abrir a porta daquele apartamento no décimo terceiro andar. Torce para que ele chegue tranquilo, como sempre foi.

Kaká, o Carlos Henrique Naón da Silva, morreu no último dia 11, em um acidente de trânsito. Tinha 22 anos.

Deixou saudades. Muitas. A dor que principalmente pai, mãe e irmão sofrem é, como diria o jornalista Marcelo Abreu, “dor que dói”, que machuca a alma e perturba os sentidos.

“Não estamos preparadas para enterrar filhos, vai contra a lei natural”, repete a mãe Liliana, na luta desleal contra a “dor que dói”.

O choro sai fácil. As lágrimas saltam para fora em cada abraço, em cada chegada e em cada saída dos amigos que não cessam de visitar a família.

“Os amigos têm sido nossa força”, diz o pai, Evandro, ressaquiado do sofrimento, com lágrimas endurecidas no rosto.

As lembranças de Kaká trazem um ou outro sorriso. Contido.

“Não é fácil”, lembra a mãe.

O irmão tentou ler um livro que fala sobre os medos contemporâneos, incluindo o da morte. Não aguentou passar da primeira página.

As fotos de Kaká sorridente, bonito e tranquilo, como sempre foi, estão por toda a casa. O quarto dele, ainda intacto, guarda o cheiro do jovem torcedor do Fluminense, amante do axé, futuro jornalista.

No corredor do apartamento, um banner não deixa a família se esquecer dos tantos amigos que o “amado Kaká” deixou. Amigos que custam a entender a ida sem volta tão prematura e inesperada.

“Cuide de nós”, pede um dos recados deixados por quem lotou o velório, participou do enterro e se emocionou na missa de sétimo dia.

De maneira impressionante, a fé sustenta aquele lar. A força divina é real, existe. É ali palpável e indiscutível.

Estar ali é refletir: “Pobre de quem crê no Deus de Marx, que O vê como ópio do povo, ou no Deus de Freud, que O ousou conceituar como ilusão”.

“Se não fosse Deus, não estaria aguentando”, confessa a mãe.

É a mais pura verdade.

Os livros , DVDs e CDs religiosos estão espalhados pela casa. Têm servido de consolo nas horas mais doídas.

A mãe mostra a última música tocada na missa. Chama-se Perdas necessárias. A canção ensina que a “saudade eterniza a presença de quem se foi”.

Mas não é tão simples. Dói. E muito. A dor é chata, insistente. Machuca o peito. Tira o sono, a fome, o ânimo.

O pai faz questão de mostrar o e-mail que recebeu quatro dias antes do acidente. É um vídeo que conta a história de Logan, um norte-americano de 13 anos que também ensina:

“Quando você perder alguém muito querido, lembre que Deus deu seu próprio Filho por amor a você”.

O pai acredita piamente que o e-mail foi um sinal dos céus. Era Ele, Deus, o preparando para o calvário que viria. A ficha só caiu depois da tragédia. E agora também serve de alento.

Em momento algum, frisam os pais, questionaram o motivo da tragédia. Não brigaram com Deus. Ao contrário, se aproximaram Dele para buscar respostas.

E dizem encontrá-las a cada dia, em cada momento em que a “dor que dói” volta a doer mais forte.

Os amigos se vão depois de comer um pedaço de pizza e tomar Coca-Cola.

Fica o vazio incômodo, doído. Faltou alguém naquele encontro. Faltou alguém para assistir aquele DVD da Ivete, para rir das conversas sem compromisso.

O silêncio da noite traz mais lembranças de Kaká. Do sorriso dele, do olhar, do silêncio, que se confundia com o da noite.

Kaká morreu. Não vai mais abrir a porta daquele apartamento no décimo terceiro andar. É nisso em que a mãe, o pai e o irmão tentam se apegar.

Forçam a se convencer de que Kaká passou. Tentam aceitar a morte e recebê-la sem angústia, sem arranhões na alma.

Em contrapartida, tentam eternizar a saudade de alguém discreto, educado, que não só não falava mal, como não gostava de quem falasse mal.

“Depois que uma pessoa morre, todo mundo só fala bem dela. Mas me diga uma coisa pra falar do Kaká! Me diga!”, provoca uma das amigas.

Silêncio.

Kaká deixou sua marca. Fez diferença.

Viveu intensamente os 22 anos que pôde viver.

“Hoje lhe devolvo, Deus, o presente que o Senhor um dia me deu. Ele é Seu”.

Assim a mãe se despediu do filho, depois que o caixão com o corpo dele entrou para debaixo da terra.

Fique em paz, Kaká. E obrigado. Obrigado por ter sido quem foi.

Categoria: Leia a Vida | 13 Comentários

13 comentários para “Fique em paz, Kaká. E obrigado.”

  1. em 28 jul 2009 às 08:47:101Tatiana

    Sinto muito.

  2. em 28 jul 2009 às 09:07:142Amanda

    “Hoje lhe devolvo, Deus, o presente que o Senhor um dia me deu. Ele é Seu”. Nada é nosso! Tudo é do Pai! Que Ele vá em paz!

  3. em 28 jul 2009 às 10:16:453Mika

    É isso… “Cuide de nós!”

  4. em 28 jul 2009 às 17:54:034Simoninha

    Esteja em paz amigo!

    SAUDADES ETERNA

  5. em 28 jul 2009 às 18:06:175Manu

    Lindo o Texto. “Quando você perder alguém muito querido, lembre que Deus deu seu próprio Filho por amor a você”.

  6. em 28 jul 2009 às 19:05:456Evandro Naón

    Diego, muito obrigado…linda homenagem ao meu irmão!! São textos como esse e o carinho dos amigos que nos abrem os olhos, para ver como o Kaká era querido por todos!!! Muito obrigado mesmo!!
    Um abraço!!

  7. em 28 jul 2009 às 23:55:507Uiara

    Dieguinhoo… muito lindo!! Tá de parabéns!!! Observou todos os detalhes da noite de ontem… muito legal mesmo!! Linda homenagem!! Beijooo

  8. em 29 jul 2009 às 01:27:548Raphael Veleda

    Porra; muito foda tudo isso.
    Voce deveria ter publicado isso no jornal.

  9. em 29 jul 2009 às 19:53:289Breno Fortes

    Diego parabéns pelo texto e realmente o nosso querido Kaká vai deixar muitas saudades.

  10. em 29 jul 2009 às 23:55:3410Marcelo Ferreira

    Diego, perdi mais do que um colega de trabalho, perdi um amigo….um cara que eu brincava todo dia, um cara que admiro e considero muito, um cara que me cobrava melhor identificação das fotos, um cara que eu fazia questão que identifica-se e trata-se as minhas fotos, muitas foram as vezes que eu ligava para ele para saber se estava tudo certo, pois, estranhava quando ele não me ligava para confirmar algo. Infelizmente não pude dar meu último adeus a ele, mas, a distância não me impediu de rezar por ele, acredito que o KAKÁ esteja em um lugar bem iluminado, pois, levou com ele a luz própria, por ser um rapaz do bem. Agora só resta a mim e aos amigos a lembrança e a saudade.
    Diego, parabéns pelo texto.

  11. em 30 jul 2009 às 00:34:3511Bruno Peres

    Diego, meus parabéns pelo texto, pelo sentimento nosso que ele relata e por essa linda homenagem.
    Enchi os olhos de lágrimas até mesmo quando li o comentário do nosso amigo Marcelo.
    E que ele, o nosso Kakazinho esteja nos olhando lá de cima.
    Abraços, paz e fé.

  12. em 30 jul 2009 às 09:55:4712Mabê

    Kakázito (como eu costumava o chamar), meu colega de Segue-me, que dividiu suas angústias no círculo, companheiro de algumas diversões, sempre de bom-humor! Cuide de nós aí de cima, nosso mais novo anjinho!

  13. em 04 ago 2009 às 11:00:2413Edilson Rodrigues

    Obrigado Dieguito!!!
    Em nome dos colegas da fotografia, muito obrigado!!
    Nosso KKazinho como era carinhosamente chamado por todos tambem deve tá te agradecendo e agora de um lugar muito especial, de onde é capaz de sentir todas essas demonstrações de amor e carinho!!!

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