Ratinho morreu
agosto 21, 2009 por Diego Amorim
Cheguei ao jornal, liguei meu computador e, zapeando as manchetes do site do Correio, me deparei com a notícia da morte de um menino de rua.
Cliquei no link e, no primeiro parágrafo, li que se tratava de Ratinho.
Há alguns meses, fui fazer uma matéria sobre uma confusão que havia acontecido no Setor Comercial Sul em pleno horário de almoço. As pessoas ouviram tiros, se jogaram no chão, foi uma correria danada.
Quando cheguei por lá, estava tudo tranquilo. Ao chegar à delegacia responsável pela área, encontrei o delegado de saída com dois agentes para justamente apurar os motivos da confusão.
Pedi ao delegado autorização para acompanhá-los. Ele topou.
Ao chegar ao porão onde os malandros costumam ficar no Setor Comercial Sul, esbarramos em usuários de crack. Não tinha ninguém fumando na hora, mas as latinhas no chão deixavam tudo muito claro naquele caso.
- Polícia, mão na parede todo mundo! – gritou um agente, enquanto o delegado fazia a cobertura, olhando para um lado e para o outro desconfiado.
Fiquei ali no cantinho só observando.
- Ratinho, você de novo por aqui, rapaz! – espantou-se o outro agente.
Mais cedo, Ratinho havia estado na delegacia. A história que rolava era que ele, Ratinho, tinha se metido na briga do irmão dele com outro homem, por conta de crack. Havia tentado, inclusive, esfaquear o agressor do irmão.
Ratinho prestou depoimento e foi liberado. E ali estava novamente.
O garoto negro, magrinho e de olhar abatido estava descalço, vestia uma bermuda suja e rasgada e uma camisa tamanho G.
- Não sei de nada, não, senhor! – se adiantava firme o menino.
O delegado deixou que eu conversasse com Ratinho, o pivô da história.
- Fala aqui com o repórter, Ratinho – pediu o delegado.
Ratinho não quis falar muito. Só disse que tinha acontecido uma confusão, mas não entrou em detalhes.
Fomos eu, o delegado, os agentes e Ratinho à procura da possível arma usada na confusão – ou um revólver ou uma faca.
Fui andando com Ratinho, com a mão no ombro dele.
- Não sei de nada, não, senhor! – repetia insistentemente.
- Ajuda a gente, Ratinho – pediu o delegado.
A arma não foi encontrada.
Ratinho era um garoto. Tinha apenas 14 anos.
Morreu com um tiro no peito na madrugada.
Liguei para o delegado ontem para confirmar se o menino morto era ele mesmo.
- É ele – confirmou o delegado.
Tem gente que acha que menino assim tem mesmo é que morrer.
Eu não. Até porque Ratinho já estava morto havia muito tempo.
Ele precisava era voltar a viver.
Teve o mesmo fim do Coração Gelado. E o de tantos outros que não ficam famosos.
Noticias ruins… Mas pelo menos é bom rever vc escrevendo aqui!!!
Abrazz
T+
PS: Muitas pazes?? eheh
Diego, já tive a tristeza de ver fatos como esse muito de perto. Muita sensação de impotência…
Que triste! Isso acontece todos os dias nas grandes cidades do país, estou mais triste por ter sido aí em Brasília, no centrão da capital, da bela arquitetura…. tbm senti falta dos seus posts.
Abraços!